A polêmica de La Vie d’Adèle em 5 momentos

Ultimamente La Vie d’Adèle – que no Brasil já recebeu o nome de Azul é a Cor Mais Quente – tem sido meu passatempo preferido. No grupo de Cinema Francês temos discutido se as últimas declarações polêmicas e as trocas de gentilezas entre o diretor Abdellatif Kechiche e as atrizes Léa Seydoux e Adèle Exarchopoulos (mais da primeira do que da segunda) é real ou golpe de marketing. De uma forma ou de outra, a novela tem dado o que falar.
E por ser meu passatempo, estou mais por dentro da confusão do que os próprios envolvidos, rs. Felizmente ou infelizmente, nem todas as declarações-chave foram traduzidas, então aqui vai:
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1- La Vie d’Adèle é apresentado em Cannes e se torna sucesso absoluto
Premiado em Cannes, Abdellatif Kechiche dividiu de maneira inédita a Palma de Ouro com suas atrizes protagonistas. O sucesso foi absoluto e as críticas exaltaram que o filme se trata de uma história de amor independente de gêneros. Na coletiva de imprensa, a atriz Léa Seydoux se emocionou ao explicar que o que o espectador vivencia ao assistir ao filme é exatamente o que as atrizes vivenciaram nas gravações. Enquanto tudo eram flores, Léa salientou que os métodos pouco ortodoxos de Kechiche contribuíram para o seu aprendizado como atriz e que, apesar de desgastante, o resultado orgulhava toda a produção.
2- Em entrevista ao Daily Beast, atrizes declaram que não trabalharão nunca mais com Abdellatif
Depois dos louros colhidos, Léa Seydoux e Adèle Exarchopoulos enfrentaram um batalhão de entrevistas – frequentemente juntas – sobre o filme. As declarações dadas ao Daily Beast foram o estopim para a confusão.
Segue a tradução das partes mais relevantes:
Léa: O que acontece é que, na França, não é como nos Estados Unidos. O diretor tem todo o poder. Quando você é um ator filmando na França e você assina um contrato, você tem que se doar de tal maneira que você está preso.
Adèle: Ele nos alertou que teríamos que confiar nele – confiança cega – e nos doarmos bastante. Ele estava fazendo um filme sobre paixão, então ele queria cenas de sexo, mas sem coreografia. Ele nos disse que não queria esconder a sexualidade das personagens porque essa era uma parte importante do relacionamento. Então ele me perguntou se eu estava pronta para fazer e eu disse “claro!” porque eu sou jovem e bastante nova no cinema. Mas assim que começamos a filmar, eu percebi que ele realmente queria que nós déssemos tudo. A maioria das pessoas nem se atreve a pedir as coisas que ele pediu, e elas são mais respeitosas – você se certifica que as cenas de sexo sejam coreografadas, o que acaba tirando o contexto sexual do ato.
Eu não conhecia a Léa no começo e durante a primeira cena de sexo, eu estava um pouco envergonhada por tocá-la onde eu achava que deveria, porque ele não nos falava o que fazer. Você tem liberdade, mas ao mesmo tempo se sente desconfortável porque não conhecer bem a pessoa.
Sobre as cenas parecerem muito reais:
Léa: Não, nós tínhamos genitálias falsas, que eram moldes das nossas. Foi esquisito ter que colocar um molde da sua genitália em cima da sua de verdade. Nós passamos dez dias gravando essa única cena.
Adèle: Um dia você sabe que vai estar nua o dia todo em várias posições sexuais diferentes, e foi difícil porque eu não sou familiarizada com o sexo lésbico.
Léa: No primeiro dia que filmamos juntas, eu acho que tive que masturbar você, não?
Adèle: Após a cena que passamos uma pela outra na rua, essa é a primeira cena que nós realmente filmamos juntas, então foi como um cumprimento de “oi!”. Mas depois disso, nós fizemos uma série de cenas de sexo diferentes. É realmente um filme sobre a paixão sexual – sobre a pele, sobre a carne. Por que Kechiche filma muitos close-ups, você tem a sensação que elas [as personagens] querem devorar uma a outra.
Sobre a duração das filmagens:
Léa: Cinco meses e meio. O que foi terrível nesse filme é que nós não conseguíamos ver o fim. Supostamente era para durar dois meses, que viraram três, e quatro, e enfim cinco e meio. Ao final, nós estávamos muito cansadas.
Adèle: Pra mim, eu estava tão exausta que eu acho que as emoções vieram de uma forma mais livre. E não tinha maquiador, stylist ou figurinista. De repente você consegue observar que os rostos foram ficando mais marcadas (de cansaço). Nós filmamos cronologicamente, e isso ajudou porque eu amadureci com as experiências que minha personagem teve.
Sobre o diretor:
Léa: Todas as cenas foram difíceis. Kechiche está sempre procurando, porque ele não sabe exatamente o que quer. Passamos semanas filmando algumas cenas. Mesmo atravessar a rua era difícil. Na primeira cena em que passamos uma pela outra e é amor à primeira vista, dura apenas uns 30 segundos, mas nós passamos o dia todo gravando – mais de 100 takes. No fim do dia, eu lembro de estar tonta e não conseguia sequer sentar. E quando terminou, Kechiche esbravejou de raiva porque depois de 100 tomadas eu passei pela Adèle e ri um pouco, porque nós fizemos a mesma cena o dia inteiro, foi engraçado. Ele ficou louco e pegou um pequeno monitor e jogou na rua, gritando “não posso trabalhar sob essas condições!”
Adèle: Nós estávamos meio “desculpe, gravamos isso 100 vezes e só rimos uma!”. Era uma sexta, queríamos ir para Paris ver nossas famílias, mas ele não nos deixava.
Léa: [gravar com ele] foi horrível.
Sobre filmar com Kechiche de novo:
Léa: Nunca mais.
Adèle: Acho que não.
3- Abdellatif Kechiche responde
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Em entrevista ao Télérama, Kechiche prontamente respondeu aos comentários das atrizes. Na minha (humilde) opinião, os comentários que repercutiram na mídia (em que ele havia dito que o filme não deveria sair pois era muito sujo) foram feitos sem o filtro da chamada ironia, rs. Em todo caso, o diretor se mostrou francamente assustado com as declarações.
Léa Seydoux rouba a cena do filme, enquanto Adèle Exarchopoulos não mede as consequências desastrosas de suas ações, que vão impedir que os espectadores entrem na sala de cinema com um coração virgem e um olhar benevolente. Eles se perguntarão, “será que esse homem não terá assediado essas jovens?”
Eu não irei ver um filme de um cineasta tirano e sádico! […] Essas declarações são piores que cuspir no prato em que se come, são uma falta de respeito com um trabalho que eu considero como sagrado. Quando li o que ela (Léa) disse, eu não entendi. Se ela realmente viveu o que contou, porque ela veio à Cannes chorar, agradecer, subir as escadas e passar o dia vestindo jóias e roupas? Qual é seu trabalho? Atriz ou artista de gala?
Sobre seu método de trabalho:
Eu não tenho a vontade de exercer poder sobre eles (os atores). Ao contrário, são os personagens e seus intérpretes que têm as rédeas. Eles tem o poder me seduzir, de me mover, de me surpreender. Eu sou prisioneiro dos atores que escolho. Fico com eles enquanto há a preparação, a filmagem, a montagem, que vai durar seis meses. Enquanto eles voltam para suas vidas e entram em outros filmes, eu estou na minha sala, com eles.
Quando Léa Seydoux se apresentou à mim, ela me disse que era difícil atuar naturalmente. Ela queria encontrar alguma coisa no meu cinema. Ela insistiu para vir e também para ficar, porque eu tive dúvidas sobre se iríamos conseguir. Eu não sabia se eu poderia ser o diretor que a ajudaria a se desbloquear. E eu não tinha certeza se ela realmente queria. Eu propus pararmos por ali algumas vezes, depois de 20 dias de filmagens. Mas ela quis continuar. Eu estava pronto para chamar Sara Forestier, que queria muito o papel. 
Ainda exaltados, a jornalista Ramzy Malouki, da Canal +, repercutiu a polêmica na estreia do filme em Toronto. Kechiche disparou novamente contra Léa: “se ela não tivesse nascido em berço de ouro, ela jamais teria dito isso. Léa Seydoux faz parte de um sistema que eu não quero, porque me incomoda. Ela não era capaz de entrar em seu papel. Tive que estender as filmagens por ela. Os realizadores sofrem para que as atrizes passem pelo tapete vermelho”.
A menção ao berço de ouro é porque a atriz é neta de Jérôme Seydoux, presidente da Pathé, um gigante do cinema francês.
Ainda em Toronto, Léa tentou acabar com a troca de farpas: “minha família nunca me ajudou. Paremos de falar de privilégios. Não critiquei Abdellatif Kechiche. Eu falei de sua abordagem. Não trabalharemos mais juntos”.
4- Adèle Exarchopoulos acalma os ânimos
Vendo o circo pegar fogo, Adèle colocou panos quentes em entrevista para a Les Inrocks.
A dureza das filmagens e a beleza do filme ficam juntas! E é verdade que me aconteceu de culpar Abdel (pela dureza), mas era pelo filme e eu tenho certeza que ele mesmo entende. Mas é preciso parar. Todos os grandes cineastas, Hitchcock, Kubrick, eram exigentes em uma produção.
 
Todo mundo se exaltou com o que dissemos. Salvo algumas coisas que eu nunca disse, por exemplo, que Abdel nos manipulou, nada do que eu disse foi pejorativo. Todos nos manipulamos, especialmente numa filmagem. Eu gostaria de ter usado uma outra palavra que não a habitual para exprimir a sedução entre um realizador e uma atriz. Nós esquecemos que, a parte de suas dificuldades, também dissemos que Abdel era um gênio.
Abdel não nos encurralou nem nos torturou, só pediu que déssemos tudo. La Vie d’Adèle foi uma escola magnífica, onde aprendi muito sobre meu trabalho como nunca antes. Abdel e Léa, eu os amarei para sempre e nunca os esquecerei.
5- Kechiche revela os bastidores da filmagem
Em sua última entrevista, divulgada no dia 4 de outubro, Kechiche continua revelando os problemas na produção, porém de maneira mais suave.

Adèle não disse nada que tenha me magoado, mas eu fiquei muito chocado pelas declarações de Léa. Eu não entendi. A explicação feliz seria de que o filme despertou nela impulsos que ela ignorava e que agora quer esquecer. Quanto às motivações mais sombrias, eu prefiro não pensar. Léa vem de um mundo que não é o meu, e não é o de Adèle, e é justamente por isso que eu escolhi a uma e a outra, pois a diferença social era essencial para o filme. De tudo, o absurdo é que Léa quis fazer o filme, ela mesma insistiu e foi perfeitamente advertida, desde o início e mesmo depois disso, porque ela foi informada por outras atrizes que já haviam trabalhado comigo. Em Cannes, salvo todas as dificuldades que passamos nas filmagens, Léa me expressou seu reconhecimento, ela se disse “irmã” do filme. O que se passou de Cannes para hoje?

Sobre as dificuldades que Kechiche mencionou:

Eu me esforcei para obter de Léa o que eu espero de uma atriz. Eu procuro a encarnação, não a demonstração, e não suporto as mímicas, os amuos, as poses, as atitudes de mulheres misteriosa. Léa tem uma concepção do trabalho de atriz que não é verdadeiramente elaborada, e para ela, a interpretação passa por maneirismos.

Para demonstrar surpresa, por exemplo, ela arqueia os olhos. Eu espero que um intérprete vá buscar (o sentimento) em sua memória primitiva. Partir ao encontro de um personagem é também, para o ator, se libertar. Eu tive a sensação de que Léa recusava essa libertação, em dois movimentos contraditórios: em um momento, ela se dizia pronta para tudo para fazer o filme mas, em outro momento, ela não queria ser pressionada. Depois de uma semana de filmagem, eu lhe propus parar, e ela se recusou. Depois de vinte dias, uma segunda conversa aconteceu, inclusive com seu agente, e eu lhe disse que se ela não sentia vontade de trabalhar comigo, eu lhe pagaria o que ela havia trabalhado e nós acabaríamos com aquilo sem fazer alarde. Ela me disse que estava feliz em descobrir um novo caminho para seu trabalho. E se as filmagens duraram mais do que o previsto foi por conta das dificuldades com ela. […]

Eu dirijo meus filmes como eu bem entendo, e não obrigo ninguém a trabalhar comigo. Pode ter acontecido do jantar ter sido servido mais tarde e que ela tenha que ter acordado muito cedo. Mas, mais de uma vez, a filmagem foi prolongada por conta dos problemas de atuação de Léa, e não por conta das minhas exigências.

Sobre se as dificuldades de filmagem foram nas cenas eróticas:

Não foram mais difíceis do que quaisquer outras. Para as cenas de amor, eu não pedi nada que não fossem expressões de paixão. Eu queria mostrar essa paixão carnal, guiada inteiramente pelo desejo. De um ponto de vista puramente estético, as duas mulheres já me serviam, mas eu também tinha planejado uma cena à três, Adèle e dois homens, que eu não filmei. Para mim, essas cenas que estão no filme não vão suficientemente longe… é verdade que nós as recomeçamos freqüentemente, mas por uma razão evidente: eu não posso pedir à Adèle e a Léa que façam o desejo durar, era preciso que elas desejassem a cena. Freqüentemente  sim, mas não por muito tempo. É como a cena da refeição em La Graine e le Mulet, que eu filmei inúmeras vezes: nós íamos somente até o momento em que os atores não tinham mais fome, e continuávamos no dia seguinte.

ATUALIZAÇÃO EM 7 DE OUTUBRO:

Entrevistada pela RTL essa manhã, Léa Seydoux reafirmou que não voltará a trabalhar com Abdellatif Kechiche, apesar de afirmar estar muito orgulhosa do filme: “o que eu disse está dito e pronto. Aconteceram coisas difíceis mas hoje o filme está pronto e eu realmente quis o fazer. Estou extremamente orgulhosa dele. No entanto, eu já disse que não, não voltarei a trabalhar com ele. Mas, em todo caso, estou muito, muito, muito contente de tê-lo feito (o filme) com ele (Abdellatif).”

Na sexta-feira, a Time Out inglesa entrevistou Adèle:

Sobre conhecer Léa Seydoux antes das cenas polêmicas:

Nós nos vimos duas vezes antes da filmagem, mas rapidamente. Então nossa primeira cena era uma cena de sexo. Então foi meio “oi! você está pelada! eu também! Bizarro.”, mas era como um jogo e era como ter uma queda por ela, uma “queda” de amigas. Nós tivemos um relacionamento forte. Nós compartilhamos muito e eu aprendi muito com ela. Mas ela nunca me deu conselhos, eu só a observava.

Sobre as cenas de sexo serem feitas para satisfazer fantasias masculinas:

Não era. Decidimos tratar essas cenas de sexo como qualquer outra, como cenas em que nós comíamos ou conversávamos; o importante era ser natural. É algo orgânico entre essas meninas, é natural, e sexo é uma força importante na vida. Eu acho que os espectadores entendem isso. O HQ tem essas cenas e eu amo o HQ, então confiei no Abdellatif.

Sobre as declarações delas sobre terem odiado fazer o filme:

O que nós dissemos era verdade mas, vamos lá, isso é arte. Nós estávamos sofrendo nesse filme pela arte. Estávamos exaustas porque haviam tantas cenas. Você fala com um jornalista por um longo tempo e ele pega uma parte do que você diz e escolhe o que usar e onde colocar, e as pessoas pegaram apenas a parte negativa do que nós dissemos. Mas eu não me arrependo de nada. Abdellatif tem sua complexidade, como um gênio, como Stanley Kubrick ou Coppola. Ele gosta de trabalhar no momento em que você está exausta. Ele grava muitas, muitas tomadas. Ele pode fazer 97, 100 tomadas, tanto faz. Ele quer ver sua alma. Ele quer que você se abandone, se perca. Algumas vezes foram difíceis, da maneira como ele insistia. Mas aprendemos muito. Não foi convencional. Eu tive muita liberdade e improvisei muito. Esse foi o melhor filme que já fiz.